INSTRUMENTOS DE DEUS“Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este [referindo-se a Saulo/Paulo] é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel.”
Atos 9:15
Até algumas décadas atrás, os índios Kaiuás ocupavam ainda inúmeras aldeias no Mato Grosso do Sul. De 1915 a 1928, o Governo Federal demarcou para usufruto dos índios um total de oito reservas, perfazendo 18.124 hectares. Este foi o início de um processo compulsório de confinamento das diversas aldeias que antes se encontravam espalhadas em um imenso território, mas que desde então deveriam se limitar às reservas demarcadas. Com a implantação da Colônia Agrícola Nacional, em pleno território de inúmeras aldeias kaiuás, feita por Getúlio Vargas, a partir de 1943, e com a instalação das fazendas de gado a partir de 1950, ocorreu a ocupação definitiva da totalidade do território tradicional pelas frentes de ocupação não-indígena.
O confinamento dentro das Reservas, que atingiu seu auge nas décadas de 1980 e 1990, criou uma realidade altamente complexa: a superpopulação, a sobreposição de aldeias e chefias, a restrição na mobilidade geográfica e o gradativo esgotamento dos recursos naturais. Este processo histórico, extremamente desfavorável aos Kaiuás, propiciou inúmeras dificuldades que são atualmente vivenciadas por eles resultando em intenso consumo de bebidas alcoólicas e o elevado número de suicídios.
Desde 1928, com a permissão da FUNAI, uma missão evangélica norte-americana se instalou na região de Dourados (MS) para levar o evangelho à maior aldeia do Brasil. Chamada de Missão Kaiuá, o movimento missionário abriu um hospital e uma escola para os índios. Em virtude da disputa histórica pelas terras nessa região, o preconceito afastou os brancos dos índios. Por isso, os índios não são bem recebidos na cidade e são atendidos apenas no hospital da missão.
Além do desafio de aprender a língua kaiuá a partir da tentativa de decifrar sons e gestos dos índios, os missionários também conseguiram codificá-la e registraram-na por escrito pela primeira vez através da publicação da Bíblia kaiuá. Este foi o trabalho de toda uma vida da missionária inglesa Audrey Taylor, que ao dizer, enfaticamente, “Deus me chamou para isso”, demonstra estar feliz, pois através de seu trabalho Deus pode falar com os índios na própria língua kaiuá. Pode Deus também falar às pessoas ao seu redor através do seu trabalho, suas ações, suas palavras, gestos e atitudes? Assim como Deus chamou Audrey para fazer esse trabalho, Ele também o chama para ser um instrumento através do qual ele possa falar com as pessoas.
Adriani Milli
Professor no UNASP Campus EC
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